TIC e Educação: essa parceria funciona?

Comecemos nosso trabalho analisando a relação que pode e deve haver entre a Tecnologia da Informação e Comunicação, que chamaremos apenas de TIC e a Educação.

Mas afinal, o que é a TIC, que tanto ouvimos falar? Para muitos, TIC é sinônimo de softwares, ou programas de computador, ou ainda, como muitos gostam de chamar, os famosos programinhas para fazer isso ou aquilo.

A TIC pode ser entendida como um conjunto de recursos tecnológicos, que interferem em processos de informação e comunicação, utilizados de forma integrada e com objetivos definidos. Esses recursos são compostos por hardware, software e telecomunicações.

Podemos dizer, portanto, que o software faz parte dos recursos de TIC, mas a TIC, em si, não se limita ao software, sendo um conjunto de ferramentas e tecnologias, que além do software, também engloba o hardware, que é a parte física, assim como, os processos de comunicação.

Juntamente a todos esses recursos, é destacado também o papel da Internet, como uma das principais ferramentas que viabilizam todo esse processo, afinal, seria praticamente impossível pensar em comunicação e informação, nos atuais tempos, se a Internet não existisse.

Agora que você já sabe o que significa TIC, voltamos ao ponto principal dessa discussão, que é a aliança entre TIC e Educação, que vem ganhando espaço e só tende a crescer, cada vez mais.

A informação é a base de qualquer processo de aprendizagem, pois quando falamos em aprender, esse ato pressupõe uma informação que deve ser adquirida, significada e, posteriormente, transformada em conhecimento.

Nesse contexto de informação, significação e conhecimento, vamos embasar nossa fala em alguns dos grandes teóricos da Educação: Vygotsky, Paulo Freire e Ausubel.

 

Para NEVES e DAMIANI (2006), Vygotsky:

…entendia que a aprendizagem não era uma mera aquisição de informações, não acontecia a partir de uma simples associação de ideias armazenadas na memória, mas era um processo interno, ativo e interpessoal.

Para FERNANDES (2011) apud AUSUBEL, o aluno somente aprende quando ele possui um conhecimento prévio sobre o assunto. Essa premissa é a base da teoria da aprendizagem significativa, de AUSUBEL.

FERNANDES (2011), ainda cita mais um trecho do livro Psicologia Educacional, onde Ausubel é enfático ao afirmar que: “O fator isolado mais importante que influencia o aprendizado é aquilo que o aprendiz já conhece”. 

FREIRE (2019), no livro Pedagogia do Oprimido, afirma que “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.

A TIC, em si, não é uma ferramenta mágica que resolverá todos os problemas que circundam a Educação, tão pouco será a solução para as questões de aprendizagem,  mas é sim, um importante instrumento para facilitar o processo, uma vez que possibilita ao aluno criar o ambiente propício para a aprendizagem, seja fazendo os links entre os mais diversos assuntos, links esses que, dentro da teoria de Ausubel, serão importantíssimos para que ele aprenda, através das conexões e conhecimentos prévios, seja por estimular a troca e a interação, possibilitando, nas palavras de Freire, a educação dos homens pelos homens.

Antes de entrarmos especificamente na aplicação da TIC na Educação, vamos fazer uma breve apresentação da TIC em outras áreas, pois talvez com a exemplificação, seja mais fácil compreender o seu papel protagonista na maioria das áreas do conhecimento.

Imagine, atualmente, uma empresa que precisasse fazer todo o seu controle gerencial, como por exemplo, contas a pagar e a receber, folha de pagamento, controle de estoque e de produção, vendas, emissão de notas, cobranças, relacionamento com clientes,  entre tantos outros controles que são inerentes ao processo de gestão de um negócio, sem o auxílio de todos os recursos computacionais que hoje temos à disposição, como computadores, smartphones, tablets,  softwares de gestão, Internet, recursos de hospedagem e armazenamento de arquivos em nuvem, entre tantos outros que fazem parte do nosso cotidiano.

Isso seria praticamente impossível, você deve estar pensando e eu concordo totalmente com o seu pensamento, pois sim, é impossível pensar numa organização administrativa sem o auxílio de computadores e softwares e todos os recursos que já falei.

A TIC assumiu seu posto no mercado, seja nas áreas da indústria, comércio, prestação de serviços, saúde, entre tantas outras áreas, aliás, fica praticamente impossível pensar numa única área em que a TIC não seja importante, senão, determinante para o sucesso do negócio. Vale ressaltar que, além do posto no mercado, a TIC também ganhou espaço na nossa própria vida, afinal, quem hoje consegue passar um dia inteiro sem nenhum recurso tecnológico? Da espiadinha nas redes sociais ao pagamento de contas pelo Internet Banking, entre as mais diversas atividades da nossa vida, que de tão simples e corriqueiras, muitas vezes, nem nos damos conta do espaço que a tecnologia já ocupa em nossas vidas.

Difícil de pensar até que voltamos nossos olhares para a Educação, porque chegaremos a triste constatação de que uma área que é tão delicada e importante, é praticamente uma das poucas que ainda não desfruta de todo o potencial que a tecnologia pode trazer.

Por quais motivos isso acontece? São muitas as possíveis respostas, certamente não responderei a todas elas, sequer tenho essa pretensão, pois esse é um assunto que não foi discutido ou esgotado o suficiente para que conclusões definitivas possam ser dadas, no entanto, ao longo desse livro, abordarei alguns pontos que podem ajudar a responder a essas complexas questões.

Um ponto que deixo registrado e que, ao que me parece, impacta diretamente na insuficiente utilização dos recursos de TIC na Educação é o baixo investimento que a Educação recebe no sentido de se modernizar. Nossas políticas públicas educacionais ainda não possuem um olhar mais acurado para essa questão, ou seja, para a necessidade de incorporar a tecnologia como uma ferramenta indispensável na área educacional.

Pelo contrário, com certa frequência, observamos medidas do poder executivo no sentido de barrar que os avanços aconteçam, como o veto presidencial ao PL 3477/20. Esse projeto visava garantir o acesso à Internet banda larga, tanto a alunos quanto professores da rede pública, em especial, durante o enfrentamento da pandemia e das restrições em relação às aulas presenciais.

Esse foi um único exemplo, no entanto, ao observarmos com maior atenção os Projetos de Leis que norteiam a Educação e os recursos a ela destinados, fica fácil compreender a falta de incentivos para que a adoção da tecnologia se torne uma realidade.

Com isso, creio que um ponto da questão tenha sido levantado. A tecnologia ainda não é adequadamente utilizada na Educação, não porque os professores a rejeitem ou porque os alunos não queiram utilizá-la, ela não é adequadamente utilizada porque não faz parte das políticas públicas para a Educação, ao menos, não como um recurso relevante.

A enorme discrepância que observamos na utilização das TICs em outros segmentos e na Educação, possuem raízes muito mais profundas, pois o mercado entendeu, desde muito cedo, que investir em tecnologia era investir no aprimoramento, na expansão dos negócios e, claro, no aumento do lucro, motivo pelo qual, a tecnologia foi rapidamente incorporada e, mesmo entre empresas pequenas, há um grande esforço no sentido de incorporar novas tecnologias, fato que não acontece na mesma proporção na área educacional.

A tecnologia da informação é uma área relativamente nova, no entanto, exatamente por ser nova, ela precisa ser estudada, compreendida e, dentro do possível, assimilada. Isso já aconteceu em diversos outros segmentos, como na indústria e comércio, mas ainda não ocorreu com a mesma intensidade na Educação e um dos motivos é o que acabamos de expor.

As escolas particulares, por sua vez, estão investindo de forma mais intensa em recursos tecnológicos, pois enxergaram que isso pode se tornar um diferencial competitivo na busca por novos alunos. Como essa lógica não se aplica ao setor público, infelizmente os investimentos são infinitamente menores, acabando por aumentar as desigualdades entre a formação dos alunos da rede pública e privada, promovendo e aumentando ainda mais a exclusão digital.

Outra dificuldade encontrada é que a grande maioria dos docentes que atuam em sala de aula, não nasceram na era digital, pelo contrário, tiveram que, ao longo da vida, assimilar uma tecnologia que há alguns anos não existia. Naturalmente, isso gera dúvidas, inseguranças e como tudo que é novo, também gera medo.

Estes e outros aspectos serão abordados, com mais profundidade, no próximo capítulo, quando falarei sobre o novo perfil profissional na área da educação.

Por muito tempo os recursos tecnológicos foram vistos como grandes vilões em sala de aula.  Até o final de 2017, pelo menos no Estado de SP, havia a Lei 12.730, de 11 de outubro de 2007, que proibia o uso dos celulares no ambiente escolar. Essa Lei foi alterada em 07 de novembro de 2017, pela Lei 16.567.

Para SILVA (2004):

E, sem dúvida, na escola que se aprende o real valor do não. A tudo que é novo, desafiador e complexo, se responde com proibições, e o papel do censor é encenado por aqueles que em determinados momentos vestem o manto do poder, ora dos diretores, ora os professores, ora os coordenadores. O proibir torna a prática pedagógica mais “fácil”, descomplexificando assim uma realidade que não simples nem fácil

 

Quando eu não sei o que fazer com alguma coisa, proibir sempre é o caminho mais fácil e curto, no entanto, também sempre é o que menos dá resultado. As crianças e adolescentes atuais já nasceram imersos no ambiente tecnológico e, portanto, possuem mais facilidade no manuseio de equipamentos e aplicativos, no entanto, mesmo entre esses jovens, pode haver algum grau de dificuldade, pois utilizar as ferramentas tecnológicas como um recurso pedagógico e como ferramenta de aprendizagem é algo bem diferente de utilizá-las como mero recurso de distração, como num jogo online com os amigos.

Vale destacar, mais uma vez, que não podemos generalizar, pois nem todas as crianças e adolescentes, embora tenham nascido na chamada Era Digital, estão de fato inseridos nesse contexto digital. Essa seria uma realidade num país sem tantas desigualdades sociais, mas não é o nosso caso e, infelizmente, muitos jovens e adolescentes ainda são excluídos do mundo digital, aliás, mais que isso, são excluídos da própria sociedade.

Voltando à questão da proibição, esta pode gerar o efeito contrário, pois precisamos lembrar que estamos falando com adolescentes que, felizmente, afrontam o sistema (e que nunca percam essa capacidade). Se existe uma forma garantida de fazer com que eles usem, essa forma é proibindo.

Por outro lado, proibir o uso da tecnologia seria mais ou menos o equivalente a você estar dentro de um Porsche, mas não poder tocar no volante. Quer dizer, você tem um recurso fantástico, potente, que pode te fazer ir para qualquer lugar, mas você não pode usar.

Não quero, contudo, passar a ideia de que tudo são flores, falando em TIC e Internet, mas é muito mais racional trabalharmos com o bom senso dos alunos, estimulando-os para a utilização adequada e sadia dos recursos, do que simplesmente impedi-los de usar.

No capítulo “Quais são os limites saudáveis da tecnologia?”, serão abordados alguns aspectos que inspiram cuidado, quando falamos em Tecnologia, no entanto, isso não quer dizer que não possamos desfrutar dos benefícios que ela oferece.

Além do efeito negativo da proibição, há ainda outro ponto a ser considerado, que é a falta de conhecimento, do próprio docente, para trabalhar com o recurso. Essa falta de conhecimento, como há pouco falamos, pode ser decorrência de múltiplos fatores, como o docente ter nascido antes da tecnologia, portanto, esta não lhe é algo natural e corriqueiro.

Ao também abordar esse aspecto, SILVA (2004) pondera que “as tecnologias da informação e da comunicação têm sido impostas nas escolas através de decisões oficiais para as quais, sem dúvida, a maior parte dos docentes está despreparada”

O fato de o docente não ter nascido na era da tecnologia, por si só, não chega a ser o maior problema, afinal, se tem uma coisa que nenhum professor tem dificuldade é em buscar o conhecimento, no entanto, a vida de muitos docentes não é simples, seja pela sobrecarga de trabalho, baixa remuneração, esgotamento físico e mental, além da falta de políticas públicas voltadas para a qualificação e capacitação. Esses sim, são fatores impactantes e decisivos para o desempenho e domínio do professor em relação às tecnologias existentes.

Me incluo nessa estatística, faço parte de uma geração que nasceu na era analógica, ou seja, antes do surgimento da tecnologia da informação, que teve que estudar muito e quebrar muitos conceitos e para se encaixar na geração digital.

Apesar da abordagem desse livro não ser voltada somente para as questões de natureza política, fica impossível não falar, em vários momentos, no contexto político, afinal, os assuntos se interconectam.

Aliás, seria desonesto ignorar as questões políticas, uma vez que a falta destas, são grandes responsáveis por muitos dos problemas que hoje os professores enfrentam.

Nosso foco, ao longo dos próximos capítulos, será o de abordar questões mais técnicas, tanto do ponto de vista do docente, discente e tecnológico, pois essa é a proposta principal, no entanto, a parceria TIC e Educação depende diretamente de políticas públicas eficientes, pois do contrário, a tecnologia torna-se apenas mais um fator excludente, ao possibilitar um conteúdo mais amplo, interessante e estimulante a alguns, ao passo que outros, no sentido oposto, continuarão com os modelos tradicionais de ensino.

 

Tecnologia e Exclusão

 

É importante ressaltar que, ao abordar aqui o contexto da Tecnologia na Educação, a própria abordagem poderá ser excludente em determinadas realidades, pois bem sabemos que não são todas as escolas desse país que possuem acesso aos recursos tecnológicos, sendo que muitas, infelizmente, sequer possuem recursos mínimos para garantir a dignidade, tanto de alunos quanto de professores.

Para SORJ (2003):

Como toda inovação social, o impacto da telemática aumenta potencialmente a desigualdade social, já que dela se apropriam inicialmente os setores mais ricos da população. Assim, a luta contra a exclusão digital não é tanto uma luta para diminuir a desigualdade social, mas um esforço para não permitir que a desigualdade cresça ainda mais com as vantagens que os grupos da população com mais recursos e educação podem obter pelo acesso exclusivo a este instrumento.

 

Ao fazer uma abordagem a respeito da tecnologia, é imprescindível abordar a exclusão que ela também causa, por isso, reforçamos a necessidade da adoção de metodologias inclusivas, de práticas que permitam aos alunos, ainda que somente dentro da escola, terem contato e interação com os meios digitais, do contrário, ao negarmos a ele essa possibilidade, estaremos, de certa forma, contribuindo para aumentar as desigualdades, ao invés de minimizá-las.

Para LIBANEO (2002), “os educadores escolares precisam aprender a pensar e a praticar comunicações midiatizadas como requisito para a formação da cidadania”. Essa fala nos faz refletir ainda mais sobre a importância da inclusão da tecnologia na nossa didática e metodologia, pois elas transcendem a vivência em sala de aula e vão muito além, influenciando a própria formação cidadã dos nossos alunos.

Ainda dentro do contexto da exclusão que a tecnologia pode causar, SILVA (2004) nos proporciona outro ângulo do problema, nos alertando para o risco da sua não utilização no ambiente escolar, fato esse que pode contribuir para o aumento da exclusão, conforme segue:

 

Há, sim, a necessidade de que a utilização do computador se propague por todo o sistema escolar, para que a qualidade do ensino não se destine apenas às classes que têm poder aquisitivo para frequentar instituições particulares que já utilizam a informática no desenvolvimento dos seus currículos.

 

Nenhuma tecnologia, por si só, resolverá qualquer problema, principalmente quando essa tecnologia for restrita a um conjunto pequeno de pessoas e, infelizmente, por maiores que sejam as estatísticas de uso e aumento da utilização da internet e dos equipamentos de tecnologia, estes ainda não são capazes de atender a classe menos favorecida da sociedade.

Ao longo desse livro, serão apresentadas propostas possíveis de serem implementadas, até mesmo em escolas com poucos recursos, sem grandes custos ou investimentos, no entanto, ainda assim, tenho plena ciência de que uma parcela enorme dos alunos ainda será excluída, infelizmente.

De forma mais direta, no capítulo “Trabalhando novas tecnologias com o uso da TIC”, citarei uma experiência pessoal, desenvolvida numa escola pública, sem grandes recursos, mas que ainda assim produziu resultados satisfatórios. Já no capítulo “Construção colaborativa do conhecimento”, há um exemplo prático de uma atividade que reúne diversos recursos tecnológicos simples, sem custos e que podem, da mesma forma, gerar resultados positivos.

Contudo, meu objetivo maior não é o de trabalhar um menu de atividades a serem reproduzidas, mas sim, mostrar ferramentas simples, gratuitas e que, com um pouco de criatividade e planejamento, possam ser adaptadas ao conteúdo didático de praticamente todas as disciplinas. Algumas dessas ferramentas estão descritas no capítulo “Ferramentas tecnológicas – exemplos práticos”.

Para que a tecnologia, efetivamente, chegue a todos os alunos, muita coisa tem que ser repensada e muitas políticas públicas precisam ser implementadas e, somente essa discussão, resultaria num livro completo. Não me alongarei nesse foco agora, no entanto, também não posso ignorar essa questão, portanto, farei um breve relato a seguir.

 

Tecnologia e Educação

 

O título desse capítulo é uma pergunta, no qual questiono se a parceria entre TIC e Educação funciona. Vamos agora buscar essa resposta.

Toda parceria envolve incertezas e riscos, isso faz parte de qualquer relacionamento e de qualquer projeto. No entanto, quanto maior a incerteza, ou seja, quanto menos conhecimento eu tiver sobre um determinado assunto, maior é o risco envolvido.

Diante disso, posso dizer que essa é uma parceria que tem tudo para dar certo, que terá sim, alguns percalços, mas que pode dar muito certo, assim como, a parceria entre TIC e Negócios deu certo, entre TIC e Indústria deu certo, entre TIC e Saúde deu certo, assim como vários outros exemplos que poderiam ser citados.

O fato determinante para o êxito dessa relação não está somente nas ferramentas tecnológicas, que por melhor que sejam, continuam sendo ferramentas, inanimadas, incapazes de, por si só, tomar qualquer decisão. Nem tão pouco, depende somente da área educacional, que como qualquer outra área, precisa evoluir. Esse sucesso, em suma, depende do vínculo que se estabelecerá entre esses elementos e na metodologia que será aplicada para uni-los.

Precisamos unir esforços, tanto profissionais da área de Educação, quanto de Tecnologia, para chegarmos juntos a soluções para esse complexo problema que envolve a baixa utilização da tecnologia dentro do ambiente escolar, seja pela falta de conhecimento, seja pela falta de recursos e equipamentos, ou qualquer outra causa, mas que acabe afastando professores e alunos de toda a tecnologia que hoje existe e que pode ser incorporada no ambiente escolar.

Esses esforços devem ser pautados pela experimentação, pela busca do novo, do desconhecido, pela exploração de novos caminhos e por muitos recomeços, afinal, falhas também vão acontecer, mas todo professor sabe que o erro faz parte do processo de aprendizagem, portanto, nada de desistir, mas sim, persistir sempre!

No livro Infovias para Educação, Silva (2004) diz que “a escola não é estática, não é imune às mudanças, não consegue estar à margem da sociedade e é nela que imediatamente são refletidas as mudanças sociais”.

Pensando nessa questão, ou seja, sobre as mudanças que acontecem, vamos fazer um exercício e imaginar uma indústria têxtil há 100 anos e uma indústria têxtil da atualidade.

Se você nunca viu, faça uma breve busca pela Internet e poderá constatar que existem diferenças abismais, tanto no que se refere aos maquinários, aos processos e a matéria-prima.

Agora, ainda nessa linha de pensamento, estabeleça outra comparação mental. Pense numa sala de aula há 100 anos e pense numa sala de aula agora. O que mudou?

Os móveis podem estar mais modernos, mas continuam sendo bancos e carteiras, o bom e velho quadro negro continua existindo, no máximo, foi substituído por uma lousa digital, o professor continua à frente dos alunos falando, donde se pode concluir que pouca coisa se modificou ao longo desses últimos 100 anos.

Prosseguimos com SILVA (2004):

…as escolas têm em suas salas de aula fileiras de estudantes, sentados lado a lado, ouvindo um professor que é considerado a grande fonte do conhecimento. Esta estrutura reflete tanto os sistemas de linha de montagem como a mentalidade da revolução industrial que orientou os caminhos de nossa sociedade. A era da informação, a pós-modernidade, exige novos modelos tanto para a sociedade quanto para a educação. Por esta razão, encontramo-nos ante a possibilidade de uma revolução no campo educacional

 

É necessário repensar o processo educativo, é necessário buscar novas metodologias, que realmente sejam inovadoras e que não somente transportem antigas ferramentas para dentro do computador, pois isso já não atende mais aos anseios dessa nova geração, que já nasceu conectada.

Falar sobre essa necessidade de mudança sempre é mais fácil do que implementá-la, afinal, quais caminhos podemos seguir para alcançar essa tão esperada transformação?

Creio também não possuir respostas prontas a essa questão, mas vou compartilhar minha impressão sobre isso. Da mesma forma que a revolução industrial trilhou um longo caminho, saindo da manufatura e se adaptando ao que na época era a alta tecnologia, consigo traçar um paralelo entre a educação e a revolução digital.

Todo o avanço digital existente, de certa forma, está provocando as mesmas profundas alterações que a máquina à vapor também já provocou. Na época, muita coisa foi revista e novos métodos foram necessários para adaptar os meios de produção ao novo ritmo imposto pelo mercado.

Hoje, os recursos digitais, as ferramentas tecnológicas, de certa forma, reproduzem essa necessidade, pois a velocidade com que os fatos acontecem é infinitamente maior, as necessidades pessoais são outras, novas profissões, impensáveis há poucos anos, se tornam realidade, assim como tantas outras, que persistiram por séculos, simplesmente desaparecem.

A própria tecnologia deve fazer parte desse “como” buscar essas mudanças, pois ela pode abrir novos horizontes, possibilitando metodologias mais interativas e, com isso, despertando mais interesse por parte dos alunos.

Nesse ponto, praticamente chegamos a um paradoxo, pois ao mesmo tempo em que discutimos os problemas da baixa adoção das tecnologias na educação, temos a própria tecnologia como ferramenta para transformar os métodos de ensino.

Um ponto fundamental de transformação, que pode ser proporcionado com a adoção da tecnologia, é a aprendizagem de forma colaborativa, que será mais bem explorada no capítulo “Construção colaborativa do conhecimento”, no entanto, dando uma possível resposta a essa questão crucial, ou seja, como o professor pode se reinventar e buscar novas formas de ensinar, proponho os seguintes exemplos ilustrativos.

Imagine você, professor de física, falando sobre as leis de Newton. Ao mesmo tempo em que o assunto é muito rico e de aplicação prática no nosso cotidiano, pode parecer distante quando ficamos presos aos conceitos e fórmulas.

Me lembro que, quando estudante, gostava dessa matéria, mas era exceção entre os colegas de turma, que não viam nenhuma razão para aprender “aquilo”.

Agora, imagine que você consiga, através dos recursos computacionais, usar simuladores para poder exemplificar esses conceitos com os seus alunos, fazer com que eles possam inserir valores nas fórmulas e, nessas simulações, possam observar o resultado prático das variações dos valores inseridos. Será que isso não tornaria a sua aula mais interessante? Não se trata mais só de decorar fórmulas, mas sim, entender para que elas servem. Os números inseridos deixam de ser exercícios chatos de cálculo e se transformam em representações de situações cotidianas.

Extrapolando, suponha que você tenha contato com pesquisadores, de algum centro de pesquisas e que esses pesquisadores aceitem fazer uma palestra, ou a demonstração de algum experimento que está sendo realizado no laboratório.

Fisicamente, seria um pouco complicado levar uma turma inteira para uma atividade desse tipo, até porque, provavelmente, existem medidas de segurança nesses grandes centros de pesquisa e que impediriam a entrada de uma classe inteira para acompanhar um experimento, mas pela Internet, usando recursos de videoconferência, isso não seria mais factível?

Suponha que você seja um docente de biologia e esteja falando sobre o sistema circulatório com seus alunos. O exercício é muito parecido com o exemplo acima.

Fazer os alunos decorarem nomes e definições é uma atividade entediante, mas se eles puderem ver um sistema circulatório em funcionamento, ainda que através de um simulador, isso não tornaria a aula mais instigante?

Da mesma forma, você poderia tentar contato com alguma faculdade de medicina ou algum curso da área da saúde, buscando profissionais que pudessem expor, de forma mais próxima da realidade, a importância do sistema circulatório. Não se trata de mais um conteúdo desconexo da realidade, trata-se de como o corpo está funcionando no exato momento em que ele está aprendendo.

Eu, assim como muitos dos que estão lendo esse livro, fazemos parte de uma geração em que o professor de geografia chegava na sala de aula e colocava um mapa na lousa. Através desse mapa, quando havia um, é que tínhamos que fazer todo o restante do exercício mental para imaginar e tentar entender tudo o que ele falava. Confesso, sempre achei maçante ficar decorando nomes de rios, afluentes etc.

Agora, ao invés de um mapa, imagine que você pode fazer seu aluno “passear” por esses lugares, através de uma ferramenta gratuita, como o Google Earth, por exemplo.

Mesmo sem nunca ter viajado, o aluno pode conhecer o mundo todo através da tela do computador.

Numa aula de História, sobre a Antiga Grécia, o aluno pode ser levado num passeio virtual, a caminhar por antigas construções da época.

Nas dicas acima, procurei exemplificar situações em que foram utilizadas soluções prontas, no entanto, existem outras possibilidades ainda pouco exploradas, muito possivelmente, também pela falta de conhecimento e de pontes entre as partes interessadas.

Por muitos anos fui orientador de projetos de conclusão de cursos superiores da área de tecnologia e uma dificuldade frequente é a escolha de temas para desenvolver os projetos, que todos os alunos concluintes são obrigados a fazer.

Vejam vocês, de um lado temos alunos capacitados em tecnologia e que precisam desenvolver projetos para concluir os cursos e, do outro, temos escolas e instituições com necessidades de ferramentas tecnológicas. O que falta para que esses dois lados se encontrem? Fazer essa ponte também pode significar mais um caminho para as mudanças que tanto desejamos na Educação.

Parcerias nesse sentido podem ser extremamente positivas a ambos e não vão custar nada ou terão um custo relativamente baixo, tendo em vista que toda a mão de obra para o desenvolvimento da solução faz parte da formação acadêmica, portanto, gratuita.

Os alunos que estão concluindo seus cursos, além de desenvolver o trabalho de conclusão, podem começar a ter contato com áreas que eles nem sabiam que poderiam atuar. Já quem está recebendo o produto do trabalho produzido, poderá se beneficiar com uma ferramenta desenvolvida especificamente para ele.

Dando um exemplo mais prático dessa situação, as escolas poderiam fazer contatos com instituições de ensino técnico e superior, deixando um canal aberto para possíveis parcerias educacionais.

Vamos supor que, você professor, tenha a ideia de um software ou um aplicativo que seria muito útil na sua disciplina, no entanto, ao pesquisar você não encontrou muitas opções disponíveis no mercado, afinal, a área de softwares pedagógicos ainda tem um longo caminho pela frente, pois pouca coisa já foi desenvolvida nesse sentido.

Para fins de exemplificação, vou voltar para o simulador para a disciplina de física, que citei logo acima.

Esse é um exemplo de um software que poderia ser desenvolvido nessa proposta de parceria. Você tem o conhecimento do que precisa ser feito, os graduandos têm o conhecimento técnico para desenvolver o que você precisa e, como resultado disso, seus alunos e tantos outros, poderem ser beneficiados com um produto personalizado e sem custo.

Esse exemplo é perfeitamente aplicável, pois como citei, os concluintes de cursos superiores precisam desenvolver projetos para a conclusão dos respectivos cursos. Das conversas entre escolas e cursos técnicos e superiores, podem surgir excelentes alternativas e propostas pedagógicas, pois aqui citei apenas um simples exemplo, mas projetos muito maiores podem ser pensados e implementados, trazendo ganhos a toda a comunidade escolar.

Essa proposta pode ser bastante desafiadora, pois envolverá uma grande interdisciplinaridade, juntando conhecimentos de várias áreas e níveis técnicos e isso sempre é um desafio. Por outro lado, o que seria da Educação sem grandes desafios? Não é isso que nos move? Imagine o quanto poderia ser estimulante, também aos seus alunos, estarem envolvidos num projeto dessa natureza, onde eles poderiam contribuir de forma direta para a construção de uma nova ferramenta.

Esses são poucos exemplos, mas de uma forma muito simples, tentei passar possíveis caminhos para a busca e incorporação dessas novas metodologias, iniciando o processo de mudança, que é longo, não será fácil, pois muitas questões se relacionam, como por exemplo, a que já citamos diversas vezes, que é a exclusão digital, afinal, infelizmente, esses recursos não estão disponíveis em todas as escolas e, menos ainda, na casa de todo aluno, mas é um começo para esse processo.

 O ensino com auxílio da tecnologia enseja muito mais autonomia e colaboração na realização das atividades, os alunos precisam ser estimulados a pensar nos problemas e a buscar por soluções, não sendo mais somente o agente passivo do processo de aprendizagem, aquele que fica sentado recebendo todo o conhecimento, ao contrário, ele se transforma em protagonista do seu próprio processo de aprendizado e, ao falar em protagonismo do aluno, não podemos deixar de citar Paulo Freire, em especial, seu livro  A Pedagogia do Oprimido.

Paulo Freire foi um ferrenho crítico do sistema educacional onde o aluno é apenas o sujeito passivo, que recebe os valores e conhecimentos, transmitidos pelos professores. Esse tipo de educação, que ele chamou de educação bancária, é aquela em que os alunos vão recebendo depósitos de conhecimento, acumulando-os ao longo da vida e, na grande maioria das vezes, um acúmulo desprovido de significado real e transformador na vida do aluno. Ainda segundo ele, quanto mais depósitos forem feitos, menos o aluno desenvolverá sua capacidade crítica.

A capacidade crítica é o que possibilita ao aluno a sua inserção no mundo, como sujeito transformador e não apenas um mero ouvinte.

Outra abordagem que ajuda a corroborar a tese do aluno, como agente ativo do processo de aprendizagem, é a abordagem Reggio Emilia, idealizada pelo pedagogo italiano Loris Malaguzzi.

 

Esta metodologia educacional orienta, guia, cultiva o desenvolvimento intelectual, emocional, social e moral das crianças. É baseada na crença de que as crianças têm habilidades em potencial e curiosidade e interesse na construção de sua aprendizagem, encaixar-se em interações socais. (NEVES, Gisele)

 

Por outro lado, todo esse discurso se torna vazio e sem sentido, se ele não for corretamente estimulado e orientado, pois as ferramentas tecnológicas, ao mesmo tempo que trazem para a tela do celular ou do computador, o mundo todo, também fazem com que esse mesmo mundo se torne um agente de dispersão e, manter o foco, especialmente nessa fase em que os hormônios estão a flor da pele, torna-se uma tarefa impossível.

Não dá para hoje, com todo o avanço que temos em nossas mãos, continuar lecionando da mesma forma como fomos ensinados, há décadas, ou pior ainda, como nossos pais, avós e bisavós também foram, motivo pelo qual, nesse mesmo capítulo, já listamos algumas possíveis ações no sentido de estimular novas metodologias, que longe de serem receitas prontas, são apenas dicas.

A geração digital gosta de ser estimulada, gosta de ser desafiada, pois a competitividade faz parte da sua personalidade. Naturalmente, não podemos estimular essa competitividade de forma nociva, mas se pudermos utilizar dessa condição para incentivá-lo a buscar cada vez mais conhecimento, por que não o fazer?

Inserir tecnologia no processo educacional vai muito além de dar um tablet para cada aluno ou professor, ou ainda, montar grandes laboratórios de informática e fazer deles verdadeiros santuários, intocáveis.

Me lembro de uma breve experiência que tive, numa escola pública, onde havia um laboratório de informática que nunca era utilizado. Certa vez, fui pedir autorização para usar, mas foram tantos os empecilhos colocados que desisti. Literalmente era um santuário, que não deveria ser tocado, mas se é assim, por que foi então montado?

Minha formação de base é na área de sistemas de informação, portanto, naturalmente sou um defensor da tecnologia, mas não porque são “ossos do ofício”, mas sim, porque realmente acredito que ela pode fazer a diferença, que ela pode ser um instrumento maravilhoso, quando bem utilizado.

No entanto, também preciso dizer que não acredito na tecnologia pela tecnologia. Para mim, a tecnologia só faz sentido quando ela torna a vida das pessoas mais simples, quando ela, de alguma forma, transforma essas vidas, do contrário, ela não serviu para nada.

O uso da TIC, como ferramenta, é sim desejável e SILVA (2004), também reforça esse conceito quando afirma que:

 

A máquina, sozinha, certamente não teria condições de criar uma sociedade onde prevaleçam a liberdade, a responsabilidade e a participação, uma vez que a quantidade não gera necessariamente a qualidade, condição sine qua non para tornar crescente a capacidade de julgar.

 

A tecnologia é uma ferramenta, assim como o giz e o apagador também são, em escalas diferentes, mas são. Assim como o giz sozinho não faz nada, a tecnologia também não.

A diferença é que a tecnologia possui muito mais recursos do que o giz, mas se não for corretamente utilizada, vira praticamente a mesma coisa.

Um dos papéis da tecnologia na Educação é descentralizar e desburocratizar o acesso ao ensino, pois sendo esse um bem inalienável e um direito fundamental, não pode estar restrito a um pequeno grupo. Naturalmente, essa descentralização não se encerra com a discussão da tecnologia, mas a tecnologia, em si, é uma das ferramentas que podem ser úteis a esse processo.

A tecnologia da informação, por sua própria definição e essência, tem essa missão, que é disseminar a comunicação e a informação, levando o acesso aos locais mais remotos.

Sou um entusiasta do ensino à distância, sempre o defendi, por outro lado, não com os métodos utilizados por muitas instituições, que tão somente, buscam uma forma barata de replicar conteúdo e diminuir o número de professores.

De forma geral, os problemas sempre são os mesmos, ou seja, não é a tecnologia, mas o mau uso que dela se faz.

Quando pensamos na tecnologia para levar conhecimento às pessoas que não possuem a mínima condição de frequentar um ensino regular, isso é algo fantástico, mas esse acesso precisa estar amparado numa metodologia desenvolvida especificamente para esse fim, além de também ter suporte de boas políticas públicas, como o provimento do acesso à Internet, por exemplo, pois, uma vez que a pessoa não tenha condições de frequentar o ensino regular, certamente também não terá meios para manter os recursos tecnológicos necessários para desfrutar do ensino à distância.

Além dos recursos tecnológicos, é necessária uma ruptura com os modelos tradicionais. O professor deixa de ser o agente transmissor do conhecimento, passando a ser um agente facilitador, no entanto, esse aspecto será abordado com mais profundidade no próximo capítulo.

Fechando esse capítulo inicial, reafirmo, a parceria entre TIC e Educação tem tudo para dar certo e isso depende muito mais de nós do que de qualquer outro fator.

Ao término desse livro, espero ter alcançado esse objetivo, que é o de mostrar a você alguns possíveis caminhos a serem percorridos.

Não serão dadas aqui as famosas “receitas de sucesso”, até porque, elas não funcionam, uma vez que cada experiência educacional é uma realidade única.

Dentro dessas características únicas que todos temos, o desafio é você encontrar o seu melhor, desenvolver o melhor método, de acordo com a sua área de conhecimento, sempre mantendo o foco no melhor processo possível para o aluno.

Essa parceria entre TIC e Educação pode dar muito certo e tudo vai depender da forma como ela for conduzida.

 

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